HISTÓRICO DA PROCISSÃO DO SENHOR JESUS DOS PASSOS
Há 260 anos, a Procissão do Senhor Jesus dos Passos mantém-se como uma das mais antigas, expressivas e significativas manifestações de fé e religiosidade popular de Santa Catarina e do Brasil. Sua trajetória histórica está profundamente vinculada à Irmandade do Senhor Jesus dos Passos e ao Imperial Hospital de Caridade, que se consolidou como o braço social e assistencial desta instituição tricentenária, unindo devoção religiosa, solidariedade e cuidado com os enfermos.
A Procissão integra um conjunto de celebrações que, anualmente, mobilizam a cidade de Florianópolis, reunindo milhares de fiéis, romeiros e visitantes. A Festa do Senhor dos Passos é composta por quatro cerimônias centrais, que se desenvolvem ao longo dos dias que antecedem a Procissão principal:
1. A Lavação da Imagem do Senhor Jesus dos Passos, realizada três dias antes da Procissão, quando crianças de até seis anos participam simbolicamente deste rito, representando pureza, fé e renovação espiritual;
2. A Missa e a Procissão do Carregador, no sábado pela manhã, quando ocorre a transferência das alfaias do Imperial Hospital de Caridade para a Catedral Metropolitana;
3. A Transladação Noturna, no sábado à noite, das imagens do Senhor Jesus dos Passos e de Nossa Senhora das Dores;
4. A Grande Procissão de Domingo à tarde, momento culminante da celebração, quando acontece o tradicional e histórico Sermão do Encontro.
A imagem do Senhor Jesus dos Passos, de extraordinário valor artístico, histórico e devocional, foi esculpida pelo artista baiano Francisco Chagas, homem negro, cuja obra se destaca pela expressividade e pela capacidade de transmitir sentimentos profundos de sofrimento, piedade, introspecção e dor interior, variando conforme o olhar e a sensibilidade de cada fiel.
Originalmente, a imagem destinava-se a uma igreja da cidade de Rio Grande (RS). Entretanto, o barco que a transportava fez escala na então Ilha de Desterro, para reabastecimento. Por três vezes, a embarcação tentou seguir viagem, sem sucesso, em razão de fortes tempestades em alto-mar. Tais acontecimentos foram interpretados pela tripulação e pela população local como um sinal divino, indicando que a imagem deveria permanecer em Desterro. Durante os dias em que permaneceu no porto, a imagem atraiu inúmeros devotos, que passaram a recorrer a ela em busca de bênçãos, graças e curas.
Registros e relatos antigos mencionam que, no passado, acreditava-se que a imagem movia a cabeça, os olhos e a língua, o que a tornava semelhante a um homem vivo. Diante do temor causado aos fiéis, esses movimentos teriam sido posteriormente travados.
Na Procissão Noturna, o andor do Senhor Jesus dos Passos é tradicionalmente carregado pelos homens, que se revezam ao longo do percurso, enquanto o andor de Nossa Senhora das Dores é conduzido pelas mulheres. Já na Procissão de Domingo à tarde, as duas imagens percorrem as ruas centrais da cidade, acompanhadas pelos membros da Irmandade, trajando seus balandraus, pelo Arcebispo, pelo Clero, por autoridades civis e religiosas, pelas bandas musicais e por uma multidão de fiéis.
Em frente à Catedral Metropolitana, ocorre o Sermão do Encontro, proferido por um pregador especialmente convidado, reencenando simbolicamente o encontro de Jesus com sua Mãe no caminho do Calvário. Durante o percurso, em locais previamente definidos, a personagem Verônica entoa seu canto, recordando o gesto de compaixão ao enxugar o rosto de Jesus.
Um dos momentos mais emocionantes da Procissão acontece ao sopé do Morro da Bela Vista, junto ao Imperial Hospital de Caridade, quando a imagem do Senhor Jesus dos Passos realiza um giro de 360 graus, gesto simbólico de agradecimento e despedida da cidade por mais um ano. Ao término da Procissão, as imagens retornam à Capela Menino Deus, sede da Irmandade do Senhor dos Passos, onde permanecem ao longo do ano recebendo visitas, orações e pedidos de milhares de devotos, especialmente enfermos, aguardando a celebração do ano seguinte.
Pela sua relevância histórica, cultural e religiosa, a Procissão do Senhor Jesus dos Passos foi o primeiro evento registrado como Bem Cultural de Natureza Imaterial do Estado de Santa Catarina, inscrito no Livro de Registro das Celebrações, conforme publicação no Diário Oficial do Estado nº 17.951, de 22 de agosto de 2006, nos termos do Decreto Estadual nº 2.504/2004.
Em reconhecimento à sua importância nacional, a Procissão recebeu, em setembro de 2018, o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, consolidando-se como uma expressão viva da fé, da memória, da identidade cultural e da tradição do povo brasileiro.
Florianópolis, 2026.
Fundação Senhor dos Passos
